Memórias emersas
Cineasta austríaco destrincha lembranças adormecidas em suspense psicológico
A mente humana é um dos tópicos mais representados pela literatura, pelo teatro e pelo cinema. A partir da psique, o autor lança seu olhar sobre temas recorrentes como a memória, a lembrança, o arrependimento, o trauma... Em Caché, o diretor e roteirista austríaco Michael Haneke desvenda a consciência de Georges Laurent (Daniel Auteuil), apresentador de um programa de televisão sobre literatura que se sente ameaçado por um voyeur que conhece seu passado. Proveniente de uma família de classe média francesa, Georges vive em Paris com a esposa Anne (Juliette Binoche) e o filho Pierrot (Lester Makedonsky). Memórias obscuras que remontam um acontecimento de sua infância vêm à tona quando ele passa a receber fitas de vídeo com imagens da fachada da casa onde vive, ligações anônimas e desenhos supostamente feitos por uma criança. É como se o pequeno monstro que habitava as profundezas de seu subconsciente insistisse em retornar para revelar-se aos familiares, aos amigos e aos colegas de trabalho. Habilidoso com a linguagem cinematográfica, Haneke inicia sua obra com o plano estático de uma tranqüila travessa parisiense. A imagem mostra a fachada da casa de Georges e é o fio condutor da trama, que embora apresente uma narrativa semelhante a de um suspense hitchcockiano, adquire nuances bergmanianas ao analisar os conflitos psicológicos de seu protagonista. O enredo funciona como o fluxo da memória de Georges: aos poucos, ele recorda lembranças fictícias da infância; pequenas mentiras que resultaram no trágico destino do garoto Majid, filho de imigrantes algerianos mortos durante uma repressão policial na década de 1960. A paranóia do casal Laurent serve como referência às atitudes do homem contemporâneo, sempre desconfiado de tudo e de todos, e que se volta contra o primeiro a manifestar o menor sinal de ameaça – seja ele verdadeiro ou não. Georges não hesita em fazer acusações fundamentadas em seu próprio medo, sem provas concretas ou testemunhas. Age por instinto em busca apenas da suposta verdade. A ausência de trilha sonora confere um tom ainda mais obscuro à história, uma vez que o clímax é criado pelo impacto das imagens e o silêncio funciona como atmosfera para o desenvolvimento da trama. Caché incomoda e instiga a imaginação; é um exercício para refletir sobre a verdade que existe em cada um de nós, acreditando-se nela ou não.
Título original: Caché Ano: 2005 Países: França, Áustria, Alemanha e Itália. Direção: Michael Haneke Com Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Lester Makedonsky, Annie Girardot, Daniel Duval. 117 min - Colorido
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Escrito por Lucie Ferreira às 23h40
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